Tode Ken Kyu Club

Milton Chanes • September 22, 2026

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TODE Ken Kyu Club

Quando os grandes mestres de Okinawa tentaram construir uma tradição comum de Karate



A história do Karate é frequentemente explicada retrospectivamente através de estilos, organizações e linhagens claramente diferenciadas, como se as fronteiras que conhecemos hoje sempre tivessem existido. No entanto, quando recuamos cem anos, até à Okinawa da década de 1920, encontramos uma realidade muito menos rígida, na qual muitos mestres se conheciam, trocavam conhecimentos e participavam em projetos comuns muito antes de nomes como Goju-ryu, Shito-ryu ou Shorin-ryu adquirirem o significado que possuem atualmente.


Um dos exemplos mais interessantes desse período foi o Tode Ken Kyu Club (embora as fontes frequentemente se refiram a ele como Karate Ken Kyu Club ao traduzirem o nome para uma terminologia mais contemporânea), também mencionado em diferentes fontes como Okinawa Karate Club ou sob denominações relacionadas com o termo kenkyu, que significa estudo ou investigação. As informações centrais deste artigo baseiam-se no trabalho publicado pelo Sensei Salvador Herráiz, que reconstruiu a história do clube, visitou pessoalmente em Okinawa o local onde este havia existido e reuniu informações sobre os seus mestres, alunos, instalações e funcionamento quotidiano. Na sua investigação, Herráiz apresenta o centro como o primeiro dojo privado especificamente dedicado ao estudo e ao ensino do Karate e situa a formação do projeto por volta de 1925, reunindo posteriormente figuras como Chojun Miyagi, Kenwa Mabuni, Chomo Hanashiro e Choyu Motobu.

Mestre Kenwa Mabuni, fundador do Shito-ryu

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Nota sobre o nome histórico do clube:
Em alguns textos modernos, esta organização é mencionada como Okinawa Karate Club ou Karate Ken Kyu Club, mas é importante ter em conta que estas denominações podem modernizar excessivamente a terminologia original. Em fontes japonesas da época aparece a forma 沖縄唐手研究倶楽部, que pode ser transliterada como Okinawa Tōde Kenkyū Kurabu, significando aproximadamente “Clube de Investigação do Tōde de Okinawa”. A diferença é significativa. Naquela época, ainda era habitual escrever o nome da arte com os caracteres 唐手, associados à ideia de “mão chinesa”, e pronunciá-lo em Okinawa como Tōde ou Tōdi. A grafia moderna 空手, que significa “mão vazia”, só se generalizaria mais tarde. Por este motivo, utilizar simplesmente a palavra “Karate” para se referir ao clube pode ser conveniente para o leitor atual, mas não reflete com total precisão a terminologia daquele período. Também é importante assinalar que o termo “Okinawa” fazia parte das denominações históricas encontradas em diferentes fontes, pelo que não parece tratar-se de um acréscimo moderno utilizado apenas para explicar a origem geográfica do clube. Numa época em que o Tōde começava a organizar-se de forma mais pública e a projetar-se cada vez mais para o Japão continental, incluir “Okinawa” no nome poderia ajudar a identificar o âmbito e a tradição representados por aquela organização. Por uma questão de clareza, neste artigo utilizamos a denominação Okinawa Tōde Kenkyū Club quando nos referimos à organização histórica, mantendo também Karate Ken Kyu Club quando fazemos referência direta ao artigo de Sensei Salvador Herráiz, uma vez que essa é a forma utilizada na sua investigação.

A existência desta colaboração também é sustentada por documentação institucional de Okinawa. O Okinawa Karate Information Center, uma entidade sediada no Okinawa Karate Kaikan, identifica Miyagi Chojun e Mabuni Kenwa como figuras de destaque do Okinawa Karate Club em 1927, quando organizaram uma demonstração por ocasião da visita a Okinawa de Kano Jigoro, fundador do Kodokan Judo. Hanashiro Chomo, Kyan Chotoku e outros importantes praticantes de Karate da época também participaram nessa demonstração.



Este dado é particularmente interessante porque ajuda a compreender que ainda estamos perante um período anterior à consolidação definitiva de muitos dos estilos que hoje conhecemos. A mesma fonte oficial de Okinawa explica que as designações Shuri-te, Naha-te e Tomari-te começaram a surgir de forma documentada em 1927, precisamente no contexto dessa demonstração, e assinala que a maioria dos ryuha atualmente conhecidos foi estabelecida posteriormente.


Por essa razão, interpretar o Ken Kyu Club simplesmente como uma associação formada por representantes de vários “estilos” modernos pode ser enganador. Estes homens provinham de diferentes linhagens técnicas, mas as fronteiras entre elas ainda não tinham adquirido a rigidez institucional que desenvolveriam nas décadas seguintes. Miyagi só adotaria a designação Goju-ryu no início da década seguinte, enquanto Mabuni desenvolveria posteriormente o sistema conhecido como Shito-ryu. O Okinawa Karate Information Center situa precisamente o aparecimento de muitos desses nomes nos anos seguintes e explica que o termo Goju-ryu surgiu depois de Jinan Shinzato ter sido questionado em Tóquio, em 1930, sobre o nome da escola a que pertencia.

Um projeto que pretendia ser mais do que a

Segundo a investigação de Salvador Herráiz, os responsáveis pelo clube pretendiam preservar e desenvolver o Karate até que este pudesse alcançar, dentro da sociedade japonesa, um nível de organização comparável ao que já possuíam disciplinas como o Judo ou o Kendo. O centro não deveria, portanto, limitar-se a oferecer um espaço para o treino físico, mas transformar-se num lugar onde diferentes especialistas pudessem partilhar métodos, estudar técnicas e contribuir para dar maior estrutura a uma arte que ainda atravessava um importante processo de transformação.


A própria evolução posterior do Karate confirma que essa necessidade de organização já estava presente naqueles anos. Em 1927, o Okinawa Karate Club tinha alcançado reconhecimento suficiente para assumir a preparação da demonstração realizada durante a visita de Kano Jigoro, um acontecimento particularmente significativo se tivermos em conta a influência exercida pelo fundador do Judo no universo mais amplo do budo japonês.


É igualmente significativo que a atual política de preservação do Karate em Okinawa continue a refletir, quase um século depois, algumas dessas mesmas ideias. Entre os seus objetivos institucionais, o Okinawa Karate Kaikan destaca a transmissão da essência do Karate, a formação de instrutores e sucessores e o intercâmbio entre diferentes estilos, tanto dentro como fora de Okinawa. Salvaguardando, naturalmente, a enorme distância histórica entre os dois contextos, estes princípios fazem lembrar o espírito de cooperação que esteve na origem daquelas primeiras organizações.

Miyagi, Mabuni, Hanashiro e Motobu sob o mesmo teto

Herráiz identifica Chomo Hanashiro, Kenwa Mabuni, Chojun Miyagi e Choyu Motobu como figuras centrais do Karate Ken Kyu Club, assinalando que Miyagi desempenhava as funções de instrutor-chefe e diretor, enquanto Motobu também participava na administração do centro.


Vista a partir da perspetiva atual, esta combinação é extraordinária. Hanashiro estava diretamente ligado à tradição de Anko Itosu; Mabuni tinha estudado tanto com Itosu como com Kanryo Higaonna; Miyagi desenvolvia a linha que recebera de Higaonna, enquanto Choyu Motobu representava uma tradição marcial ligada à sua própria família. Em vez de os encontrarmos separados em diferentes capítulos dos atuais livros de história, durante aqueles anos estes homens podiam fazer parte de um mesmo projeto comum.


Essa convivência torna-se ainda mais significativa quando recordamos que Naha, Shuri e Tomari constituem precisamente os grandes contextos históricos associados ao desenvolvimento do Karate de Okinawa. A própria Assembleia Municipal de Naha reconhece oficialmente Naha como o “berço do Karate tradicional de Okinawa” e assinala que Naha-te, Shuri-te e Tomari-te se desenvolveram no território que hoje corresponde à cidade moderna.


Por essa razão, o Karate Ken Kyu Club não deve ser considerado apenas uma curiosidade histórica nem simplesmente um dojo que reuniu durante alguns anos vários mestres famosos. A sua importância reside no facto de refletir um período anterior à fragmentação institucional do Karate, quando alguns dos seus principais protagonistas ainda pareciam considerar possível estudar, preservar e desenvolver a arte dentro de um espaço partilhado.


Talvez seja precisamente por isso que, um século depois, o projeto continue a exercer tanto fascínio. Antes de se tornarem fundadores, representantes de estilos ou figuras colocadas em ramos separados das árvores genealógicas, estes homens eram karateka que partilhavam o mesmo espaço e que, durante um breve período, tentaram construir juntos uma parte do futuro do Karate.



FONTES


  • Fonte principal deste artigo: Salvador Herráiz, Karate Ken Kyu Club, artigo histórico utilizado como base para a reconstrução do clube, dos seus membros, instalações e funcionamento.
  • Fontes institucionais de apoio: Okinawa Karate Information Center, Okinawa Karate and Kobudo, em particular a documentação relacionada com o Okinawa Karate Club e com a demonstração de 1927.
  • Assembleia Municipal de Naha: Declaração da Cidade do Karate e Kobudo.
  • Okinawa Karate Kaikan: informação institucional e objetivos declarados do centro. 


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